Confesso que, antes de iniciar a leitura, eu não tinha muita clareza do que encontraria em Anticristo. Em um primeiro momento, imaginei uma obra mais voltada à ficção ou a um embate direto contra a religião em si. Não poderia estar mais enganado. O que Roberangels entrega aqui é um relato pessoal, intenso e, acima de tudo, honesto sobre fé, crença, espiritualidade e as consequências de se entregar cegamente a discursos que prometem salvação absoluta.
A narrativa acompanha Roberto, um homem profundamente envolvido com o meio religioso, alguém que acreditava estar vivendo experiências espirituais genuínas: revelações, profecias, dons espirituais e um contato direto com o divino. No início, tudo é apresentado como algo elevado e reconfortante. Existe um senso de propósito, de pertencimento, de missão. Porém, conforme o livro avança, essa relação com a fé começa a se transformar em algo sufocante, marcado pelo medo, pela culpa constante e por uma pressão psicológica difícil de ignorar.
O ponto mais forte de Anticristo está justamente nessa transição. O autor não romantiza sua jornada nem tenta suavizar os impactos emocionais de suas vivências. Pelo contrário: ele expõe suas fragilidades, seus conflitos internos e o processo doloroso de perceber que aquilo que acreditava ser luz também produzia sombras. O livro caminha, então, para um questionamento cada vez mais profundo sobre autoridade religiosa, manipulação da fé e o uso do medo como ferramenta de controle.
Roberangels constrói o texto de forma direta e em tom de conversa franca com nós, leitores Não há uma preocupação em convencer, mas sim em relatar. E é justamente isso que torna a leitura tão incômoda em alguns momentos. O autor mostra como discursos religiosos podem se infiltrar na mente de alguém a ponto de apagar o senso crítico, criando uma realidade onde questionar passa a ser sinônimo de pecado ou rebeldia.
Outro aspecto interessante da obra é a forma como ela dialoga com a filosofia, especialmente ao mencionar o Mito da Caverna, de Platão. Essa referência surge como um suporte para discutir o despertar da consciência e a dificuldade de abandonar crenças que estruturaram toda uma visão de mundo. Não se trata de um recurso gratuito, mas de um complemento que ajuda a entender o processo de ruptura vivido pelo autor.
É importante deixar claro que Anticristo não é um livro contra a fé, tampouco um ataque direto às religiões. O foco está no extremismo, na fé sem questionamento e nos danos que esse tipo de entrega pode causar à saúde mental e emocional de uma pessoa. O livro convida o leitor a refletir sobre limites, responsabilidade e a importância de manter o pensamento crítico mesmo dentro de contextos espirituais.
A leitura pode ser desconfortável para quem possui uma relação muito próxima com a religião, especialmente porque o autor toca em temas sensíveis e relata experiências que muitos preferem ignorar. Ainda assim, é justamente esse desconforto que torna a obra relevante. Anticristo: Nem tudo que é rosa são flores é um livro que provoca reflexão, levanta debates necessários e expõe uma realidade pouco discutida: a de pessoas que sofrem em silêncio dentro de ambientes que deveriam oferecer acolhimento.
No fim, fica a sensação de que este é um livro sobre liberdade. Liberdade de pensar, de questionar, de sair da caverna quando a luz começa a doer. Uma leitura forte, pessoal e necessária, principalmente em tempos em que discursos prontos costumam ser aceitos sem muita resistência.